Egípcio Salah

Efeito Salah reduz crimes de ódio a muçulmanos

Efeito Salah reduz crimes de ódio a muçulmanos


Crédito: (John Powell/Liverpool FC via Getty Images)

“A exposição a celebridades bem-sucedidas de grupos estigmatizados pode reduzir o preconceito em relação a esse grupo em geral?”. Esta é a pergunta que moveu um trabalho de pesquisa e análise de dados desenvolvido pelo Laboratório de Políticas de Imigração, monitorado pela Universidade de Stanford (Estados Unidos) em parceria com o Instituto Federal de Tecnologia de Zurique (Suíça). No trabalho, o foco foi um jogador de futebol: Mohamed Salah.

Para entender, basta olhar para as origens do atacante do Liverpool. Mohamed Salah Hamed Mahrous Ghaly é um egípcio, possui raízes árabes e veio do continente africano. Só por este conjunto de fatores, sua presença no futebol europeu poderia gerar repulsa nos mais xenofóbicos frequentadores de arquibancadas dos estádios por onde passa. Além da nacionalidade, Salah é muçulmano, adepto ao islamismo, uma das religiões que mais sofrem com intolerância religiosa na Inglaterra e em todo o mundo. O atleta não esconde sua crença, inclusive celebrando seus gols com alusões claras à sua religião, e na maioria das vezes abre os braços e se agacha para beijar o chão logo depois.

O sucesso do atleta em campo dispensa apresentações. Acontece que tal desempenho fez com que a torcida do Liverpool criasse cantos para exaltar, motivar e homenagear Salah, com referências à sua religião. Nos dois abaixo, é possível observar a relação entre a identidade de Mo e a quebra de estereótipos que cercam sua religião.

If he scores another few (Se ele marcar mais alguns)

Then I’ll be Muslim, too (Então eu também serei muçulmano)

If he’s good enough for you (Se ele é bom o suficiente para você)

He’s good enough for me (Ele é bom o suficiente para mim)

Sitting in a mosque… (Sentado em uma mesquita…)

That’s where I wanna be. (É onde eu quero estar)

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Mohamed Salah (Mohamed Salah)

A gift from Allah… (Um presente de Allah…)

He’s always scoring (Ele está sempre marcando)

It’s almost boring (É quase chato)

So please don’t take (Então, por favor, não leve)

Mohammed away. (Mohammed longe)

Em uma das esferas da pesquisa, os cientistas se basearam no índice de crimes de ódio em 25 departamentos de polícia na Inglaterra entre 2015 e 2018, com focalização em Merseyside, onde o time do Liverpool está localizado, comparando os períodos antes e depois da chegada de Salah ao futebol inglês e os resultados obtidos, de fato impressionam.

No condado de Merseyside, após a chegada de Salah, o índice de crimes de ódio foi 18,9% menor em relação à taxa esperada caso ele não tivesse se transferido para o Liverpool. Os crimes de ódio foram os que mais diminuíram no local dentre diversas outras categorias de crimes, o que acaba por evidenciar que tal queda nas estatísticas não possui relação com uma redução geral de crimes, ou seja, é algo específico. A diminuição no local não é ao acaso, principalmente porque entre todos os condados ingleses, o de Merseyside foi o que registrou a maior redução no registro deste tipo de crime.

Gráficos da pesquisa mostram queda dos crimes de ódio entre outras 14 modalidades de crime em Merseyside. (Foto: Reprodução)

Na outra esfera do trabalho, a quase sempre hostil internet, 15 milhões de tweets de fãs de futebol do Reino Unido também foram analisados. Entre os torcedores do Liverpool, caiu pela metade o índice de tweets com intolerância direcionados aos muçulmanos. De 7,2%, a taxa de postagens reduziu a 3,4% em relação aos torcedores de outros clubes do primeiro escalão do futebol inglês, no que diz respeito ao comportamento intolerante ao islamismo.

Mais gráficos comprovando a queda dos crimes de intolerância a muçulmanos em Merseyside. (Foto: Reprodução/Twitter)

Por fim, o experimento da pesquisa sugere que os resultados podem ter sido impulsionados pelo aumento da familiaridade com o Islã. As descobertas apontadas por meio da pesquisa indicam que a exposição positiva a modelos de comportamento de grupos externos pode revelar novas informações que humanizam e aproximam um número considerável de pessoas às que pertencem a grupos de exclusão. Trocando em miúdos: a ascensão do egípcio está diretamente ligada a mudança de postura de parte dos torcedores do Liverpool no que concerne a gama da intolerância religiosa.

Provocação e resposta

Salah comemora golaço contra o Chelsea “meditando”. (Foto: Divulgação/Liverpool FC)

Em abril deste ano, torcedores do Chelsea gravaram um vídeo antes da partida de ida das quartas de final da Liga Europa, disputada na República Tcheca, contra o Slavia de Praga. Na postagem, o grupo canta que Salah (que já defendeu o Chelsea, vejam só vocês) é um homem-bomba.

A repercussão na internet foi bastante negativa e recebeu repúdio de torcedores, ONG’s que lutam pelo fim da xenofobia e intolerância religiosa, do próprio Chelsea e também do Liverpool. Três torcedores foram identificados e o clube londrino os proibiu de comprar ingressos para a partida em Praga. No entanto, o melhor dos castigos veio com o próprio Salah, que respondeu como sabe: jogando bola.

O jogo do Chelsea havia ocorrido numa quinta-feira (11 de abril). Naquela mesma semana, no dia 14, o Liverpool receberia os Blues em Anfield em jogo válido pela 34ª rodada da Premier League. Os Reds venceram pelo placar de 2 a 0 com gols de Mané e Salah. O segundo, por ironia do destino, com uma bomba. Veja:

As comemorações dos dois gols foram simbólicas. O camisa 10 do Liverpool, senegalês e também muçulmano, se abaixou para beijar o chão. O egípcio, por sua vez, alvo dos ataques naquela semana, juntou as mãos em gesto de meditação, prática comum na busca por paz interior, e parou em pé numa perna só por alguns segundos. Depois do jogo, Salah disse em entrevista à Sky Sports que é o “homem yoga” e revelou ser adepto da prática. “Eu não sei, eu só tinha em mente imediatamente fazer aquilo. Faço yoga”, disse.





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